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Quem somos

 

 

O site Kanindé Cultural é uma iniciativa espontânea de canindeenses, natos ou de coração, em divulgar a cultura da Terra de São Francisco, não tendo qualquer outra pretensão, além dessa. A primeira decisão acertada entre seus componentes, editores, colaboradores, artistas que aceitaram participar ou divulgar a sua imagem e obra, foi a completa ausência da questão político-partidária em suas páginas. Com isso também compreenda-se o politicamente correto, como a abjuração do racismo, do sexismo etc. O conceito de Cultura, conforme entendido no mundo ocidental diz respeito aos fatores que não eclodem com o nascimento humano, mas que são criados e aprimorados com a comunicação, com a cooperação entre os indivíduos no meio social. Optou-se, não sem discussão prévia, por grafar Canindé com K. Trata-se de uma homenagem aos habitantes primevos da terra brasileira. É nossa homenagem aos que, por falta de melhor termo, são chamados índios kanindés. Dos quais consta haver remanescentes na serra da Aratuba embora, essa existência, desperte certa dúvida à pena dos historiadores. Outra justificativa seria o componente sincrético do nome, numa proposta de não se rejeitar nenhum tipo de manifestação cultural, dos mais singelos ramos do folclore ao soneto de feição italiana.

 

O Kanindé Cultural, em sua proposta fundadora, não tem objetivos comerciais. Não aufere contribuições públicas de qualquer espécie, embora não descarte a necessidade de vir a fazê-lo, se sem fins lucrativos. Trata-se de um acerto multidisciplinar entre amigos: webmasters, psicanalistas, poetas, radialistas, cronistas, agitadores culturais, cordelistas, pintores, cartunistas, músicos, todas as nuances da cultura, enfim, com ênfase primordial às coisas de Canindé, terra que projeta os componentes e o que é composto dessa saudável reunião de múltiplos saberes. Está aberto às colaborações de todos os níveis artísticos, que não sofrerão julgamento de valor em relação à obras consagradas, bastando passar pelo crivo da simplicidade e da honestidade, e ter disposição de estarem expostas aos olhos sem fronteiras da Rede Mundial de Computadores – Internet.

 

Sílvio Roberto Santos

Homenageado do Mês

 

 

ADEUS, SENHOR RAIMUNDO CIRIACO!  


(Tonico Marreiro)


Faleceu dia 12 de Outubro e foi sepultado dia 13, um grande cidadão de Canindé, senhor Raimundo Ciriaco. Um exemplo de vida a ser seguido por todos aqueles que queiram vencer na vida com dignidade. O senhor Raimundo Ciriaco foi um menino pobre. Muito pobre. Mas, os seus pais lhe ensinaram a ter fé em Deus, lutar pela vida através do trabalho e da dignidade. Assim, a sua infância foi uma infância sem brinquedos, sem livros e sem luxo. Criança ainda ajudava o seu pai no plantio do roçado, semeando o milho, o feijão e o algodão, entupindo as covas com os seus pezinhos de criança de 8 anos de idade. Aos 12 anos, já tangia comboios de jumentos, conduzindo os produtos produzidos na agricultura, da Serrinha do Limoeiro, da Preguiça, para o Canindé, e, as vezes até para a Serra do Baturité. Certa vez, tangendo 8 jumentos, conduzindo costais de surrão de Canindé para a Serrinha do Limoeiro, meio dia em ponto, e muita fome, subindo a íngrime Ladeira Branca, de repente, uma corda que atava o surrão ao cambiçote da cangalha se quebra e o surrão vai ao chão. Ele, Raimundo Ciriaco, menino fanzino, com muita fome, sol quente do meio dia, teve muito sacrifício, para, sozinho, colocar aquele surrão novamente no cambiçote da cangalha. Mas, colocou. De lá, da Ladeira Branca, avistando o Canindé, suplicou a São Francisco que lhe desse um novo rumo no seu viver e no seu trabalho. E o nosso glorioso Padroeiro lhe atendeu, em virtude da grande fé com a qual o Senhor Raimundo Ciriaco pediu. No outro dia, vindo a Canindé, o saudoso comerciante Homero Martins, lhe incentivou para botar uma bodega lá na Serrinha do Limoeiro, em conseguinação. A partir daí, foi o começo de uma nova vida para o Sr. Raimundo Ciriaco. Porque, ali, naquela pequena bodeguinha, se revelava um comerciante nato, embora fosse um homem de poucas letras, pois não tivera tempo para freqüentar escolas por um período que tivesse um bom aprendizado. Sob as graças de Deus, ao lado da grande esposa, Dona Mitonia, com a sua fé enorme, o Sr. Raimundo Ciriaco se tornou um dos homens mais independentes em termos financeiro do Canindé. Foi um grande agropecuarista, e próspero comerciante. E deu a mão a muita gente. Como o seu dinheiro era abençoado, todos progrediram e se tornaram também destacados comerciantes nesta terra. Foi a Jerusalém onde Cristo nasceu. Foi a Roma onde visitou o Papa e em Assis esteve na Porciúncula para reverenciar a São Francisco. E foi a Portugal, na Cova da Iria, pois era fiel devoto de Nossa Senhora de Fátima. E por ela adotou o número 13 como o seu número da sorte. Sua carteira de identidade termina num 13. O seu “Armazem Canindé”, na rua Conde D’eu é o 513. Faleceu num dia 12, “Dia da Criança”, porque tinha um coração puro de uma criança e dia de Nossa Senhora Aparecida, sepultando-se no dia 13, dedicado a Nossa Senhora de Fátima. Era alegre, expansivo e tinha as suas tiradas de bom humor. Gostava de provocar o Homerim, sempre que nos encontrava. Foi boemio sadio e adorava ser acordado por uma serenata, tantas vezes promovida pelo poéta/seresteiro Raimundo Marreiro, no dia do seu aniversário, 22 de Setembro. No seu imenso círculo de amizade, tinha um apego especial ao já também saudoso Chico Caboclo, seu vizinho desde a infancia, pois morava a pouco mais de 100 metros de distancia, na localidade de “Preguiça”, na Serrinha do Limoeiro. Aos 86 anos, o Sr. Raimundo Ciriaco retornou a casa de Deus, depois de haver cumprido a sua tarefa terrena com muita dignidade, honestidade, numa vida exemplar. Registramos aqui a nossa saudade, através dos seus filhos e filhas, bem como do seu genro/filho Afonso Braz da Silva, sem esqueçer o seu fiel escudeiro, amigo da sua mais completa confiança, Antonio Ferreira, o popular “Toinho Cabôclo”, na...

 

VOZ AMIGA DO CANINDÉ!

 


LOSMUNDO MARRRA

 

      No início dos anos 80, quando regressei de modo definitivo a Canindé para assumir o emprego do Banco do Brasil, a cidade era bem diferente do que é hoje. O número de carros talvez não chegasse  a 10 por cento dos atuais e as motos podiam ser contadas  nos dedos . A título de exemplo, o bairro Santa Luzia , hoje completamente tomado por casas chamava-se  ainda Fazenda Itaporanga   e era local de caça para alguns e outros extraiam lenha e/ou fabricavam carvão. Não sou do tipo que gosta de remoer o passado em que o saudosismo é engolido por mágoa,  revolta ou tolas comparações de que “no meu tempo era assim”, com um certo ar de superioridade. O meu tempo era aquele é o mesmo de hoje e será o amanhã, pelo menos enquanto   vida eu tiver.

                      Evidentemente que é muito bom recordar dos bons momentos cujas lembranças afagam a alma e arejam a própria existência.  Gosto de lembrar que nos finais  de tardes  ao sair do Banco ia sempre na Casa Marreiro, onde o Laurismundo esbanjava sua irreverência ao passo que se consolidava como líder de uma turma que ali comparecia  diariamente. Ele que levara a vida toda como professor e ainda exercia a profissão, estendia seu mister nos momentos de folga, dando lições de vivência  contando do período que morou  em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, de quando serviu como soldado da aeronáutica , além de falar da sua infância e adolescência em Canindé. Como grande gozador, sempre potencializava os casos mais jocosos, mesmo aqueles em que ele ficara em desvantagem, seu espírito superior permitia largamente a auto-gozação.

                     Na juventude foi um atleta, adorava vôlei, natação e praticou jiu-jitsu. Por várias vezes falou de uma luta entre ele e um membro de um circo aqui chegou na década de 50. Uma renhida luta em pleno picadeiro em que ele venceu de cara os dois primeiros round’s  e no terceiro, enquanto se articulava para dar um golpe definitivo no algoz, seus amigos supuseram que ele se achava em desvantagem e foram em seu socorro.

                    Naquela época por falta de outros atrativos (nem se falava em televisão e raros eram os que podiam possuir um rádio) os interiores eram infestados por espetáculos mambembes. Era um circo paupérrimo, coberto e envolvido por lona surrada e ao que parece o palhaço era tido como “imoral” para os padrões sociais vigentes, talvez extremamente inocente comparado aos atuais.

                  Como a cidade era minúscula tínhamos uma vigilância muito acentuada da Igreja Católica que, de certa forma, alertava a comunidade evocando a prática dos bons costumes.  Prova disso é que o Circo foi assunto do jornal  Santuário de São Francisco de n º 950, ano 41, datado de 15 de agosto de 1955, na forma que se segue: “ No Circo Teatro União que visitou Canindé em princípios de agosto, deram-se diversos desastres, devido alguns a imprevidência do seu pessoal. Uma cerca levianamente eletrificada para impedir a entrada de paraquedistas, ocasionou perigoso choque de um operário do mesmo circo. Numa luta de Jiu-Jitsu entre um jogador do circo e um da cidade, os ânimos se agitaram havendo violência entre os torcedores. E finalmente o palhaço em diversos programas escorregou do terreno do bom humor para os ditos dúbios”.

       Como se vê, o irreverente Laurismundo foi notícia no Santuário ainda que de maneira velada. Acho que nem mesmo ele sabia e se soube também nunca me falou, o certo é que “Losmundo Marra” existiu, lutou e foi notícia.

      Informações colhidas junto aos irmãos Tonico e Natan Marreiro, dão o exato relato da história: Laurismundo, até pouco mais de um mês, era soldado da Base Aérea de Fortaleza e nas horas vagas atuava como professor de Inglês e Educação Física no Colégio Arminda Araújo que ainda hoje existe com o nome de Franklin Roosvelt.  Apesar da estatura pouco avantajada era muito forte, e se enquadrava no tipo que a juventude hoje chama de “sarado”; ademais, treinava Jiu-Jitsu quase que diariamente.

                Tendo dado baixa na vida militar, voltou a Canindé com o intuito de dedicar-se ao magistério, justamente na época em o circo aqui aportou. A pequena companhia circense, apesar do nome pomposo - Circo Teatro Escola - era na verdade mais conhecido como Circo do Pereirinha.  Era dotada de um número muito limitado de membros e eles em conjunto faziam de tudo, atuavam desde a montagem do espaço físico e eram os próprios artistas do espetáculo. Havia entre eles um camarada que logo na montagem do circo impressionou a todos pela aparência robusta, compatível com a força física que demonstrou no serviço pesado fincando estacas de ferro a toque de marreta e carregando madeira às costas para montar a arena. Chamava-se Zacarias e no espetáculo demonstrava destreza apresentando-se como trapezista  sem nenhuma rede de proteção.

                 O circo era montado em frente ao Mercado Público, no exato local em que hoje se acha a Praça Tomaz Barbosa.  Entre as atrações diárias o trapezista Zacarias simulava  luta com um membro do circo, que em rodízio, apanhavam do “astro”.  A Partir do segundo dia Zacarias passou a desafiar a qualquer um da cidade que quisesse lutar com ele, marcando logo a luta para o espetáculo seguinte. Na verdade tratava-se de um estratégia, presumivelmente utilizada onde eles passavam,  para encher a casa. Não aparecia ninguém disposto a enfrentar a fera, até que um grupo de amigos do Laurismundo fizeram de tudo para convencê-lo a participar da luta, afinal, todos se sentiam desmoralizados e somente ele, apesar da visível desvantagem física pelo tamanho de Zacarias, poderia lavar a honra da juventude canindeense,  fazendo uso de técnicas de luta. 

                Laurismundo de princípio relutou, mas acabou cedendo pelo sentimento bairrista, afinal Zacarias teria dito que em Canindé não tinha homem para enfrentá-lo. Tudo isso sob os protestos do seu genitor, Seu Raimundo Marreiro, cujo espírito poeta, o mantinha arredio a qualquer disputa violenta. Naquela noite em pleno picadeiro aceitou o desafio e a luta foi marcada para o dia seguinte às 20:00h.

             Na hora marcada entraram no ringue mal acabado, sob o anúncio do apresentador, o invencível “ Zacarias”, que foi freneticamente vaiado pela juventude local  e o desafiante “ Losmundo Marra” (foi a maneira que ele consegui para enfeitar o nome do Laurismundo) que foi ovacionado pelos torcedores.

           Foi anunciado o início da luta e Zacarias, visivelmente maior pelo menos um palmo, do alto fitou o adversário  com a mesma  empáfia com que Golias olhou para Davi na batalha entre Filisteus e Israelitas  e partiu para o ataque pesado. O desafiante mostrou destreza e num certeiro golpe dominou o gigante. Partiram para o segundo round e mais uma vez o resultado se repetiu, inobstante a força descomunal do circense.  No terceiro round  Zacarias usou de uma terrível artimanha que impediu o adversário  de dominá-lo. Segundo o Natan, ele impregnou todo seu corpo de um óleo e o Laurismundo não conseguia agarrá-lo, pois este “ensebado” escapava dos golpes que em vão lhe eram aplicados. Houve um momento em que o Laurismundo escorregou e o adversário caiu por cima dele sufocando-o com a barriga. A plateia ficou atônita e silenciosa. O Natan e o Marreirinho tinham montado uma estratégia para salvar o irmão caso ele estivesse em desvantagem: cada um armado de baladeira e pedras, criteriosamente selecionadas no leito seco do rio Canindé, atiraria na cabeça do adversário. Quando eles se preparavam para o socorro,  enquadrando o agressor na linha de tiro, a plateia enfurecida invadiu a arena, tendo à frente o Ribamar Cordeiro, que puxou uma faca, soltou um grito de guerra e partiu para Zacarias que em pânico saltou o ringue e emendou carreira para longe do circo. Enquanto isso “Losmundo Marra” era carregado como herói nos braços do povo por ter lavado a honra dos seus conterrâneos, mostrando que Canindé era  terra de cabra macho. Naquele momento ele dava por encerrada sua carreira de lutador no ringue, todavia, até um final dos seus dias terrenos foi um lutador em prol da educação e da cultura de sua terra, mas aí já é outra história.

 

Augusto Cesar Magalhães Pinto – outubro/2011

 

 

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12/09/2011 - O poeta Arievaldo Viana faz sucesso no Rio de Janeiro com o lançamento da coleção "Era uma vez ... em cordel" (Globo |Livros). Veja mais na seção Notícias.

02/11/2011 - Raimundo Ciriaco é o homenageado do mês de novembro. Página principal.

02/11/11 - Losmundo Marra é o título do texto de César Magalhães exibido na página principal.

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