Escolha acima entre o Facebook, Twitter, Email ou Orkut e compartilhe com seus amigos.
O site Kanindé Cultural é uma iniciativa espontânea de canindeenses, natos ou de coração, em divulgar a cultura da Terra de São Francisco, não tendo qualquer outra pretensão, além dessa. A primeira decisão acertada entre seus componentes, editores, colaboradores, artistas que aceitaram participar ou divulgar a sua imagem e obra, foi a completa ausência da questão político-partidária em suas páginas. Com isso também compreenda-se o politicamente correto, como a abjuração do racismo, do sexismo etc. O conceito de Cultura, conforme entendido no mundo ocidental diz respeito aos fatores que não eclodem com o nascimento humano, mas que são criados e aprimorados com a comunicação, com a cooperação entre os indivíduos no meio social. Optou-se, não sem discussão prévia, por grafar Canindé com K. Trata-se de uma homenagem aos habitantes primevos da terra brasileira. É nossa homenagem aos que, por falta de melhor termo, são chamados índios kanindés. Dos quais consta haver remanescentes na serra da Aratuba embora, essa existência, desperte certa dúvida à pena dos historiadores. Outra justificativa seria o componente sincrético do nome, numa proposta de não se rejeitar nenhum tipo de manifestação cultural, dos mais singelos ramos do folclore ao soneto de feição italiana.
O Kanindé Cultural, em sua proposta fundadora, não tem objetivos comerciais. Não aufere contribuições públicas de qualquer espécie, embora não descarte a necessidade de vir a fazê-lo, se sem fins lucrativos. Trata-se de um acerto multidisciplinar entre amigos: webmasters, psicanalistas, poetas, radialistas, cronistas, agitadores culturais, cordelistas, pintores, cartunistas, músicos, todas as nuances da cultura, enfim, com ênfase primordial às coisas de Canindé, terra que projeta os componentes e o que é composto dessa saudável reunião de múltiplos saberes. Está aberto às colaborações de todos os níveis artísticos, que não sofrerão julgamento de valor em relação à obras consagradas, bastando passar pelo crivo da simplicidade e da honestidade, e ter disposição de estarem expostas aos olhos sem fronteiras da Rede Mundial de Computadores – Internet.
Sílvio Roberto Santos
Aplausos de todos canindeenses e daqueles que adotaram o Canindé nos seus corações, para a feliz iniciativa do atual Secretário de Desenvolvimento e Turismo da Prefeitura Municipal desta cidade, Plínio Gomes, que, objetivando obstinadamente defender o patrimônio cultural histórico da “Terra de São Francisco”, contra a sanha dos vândalos de “mente miúda”, que se revezam na criminosa destruição dos prédios marcos da nossa história, logo que assumiu aquela pasta, arregaçou as mangas e fez jus ao cargo que passou a ocupar. E começou pelo ícone maior do Canindé, no caso, a nossa suntuosa Basílica.
Conforme documentos que tenho em minhas mãos, o Secretário Plínio Gomes desde Abril de 2009 vem gestionando junto a Secretaria de Cultura do Estado buscando preservar para a história cultural religiosa e turística da nossa terra, o que ainda sobrava da grande obra tocada pelo saudoso benfeitor do Canindé, Frei Matias de Ponterânica, cujo Capuchinho Franciscano, com parcos recursos, entre os anos de 1910 e 1915, conseguiu transformar a então matriz na mais bela e suntuosa Basílica da América do Sul.
Dia 4 de Maio ultimo, encontrei o Plínio Gomes feliz, com ar de vitorioso, ao me comunicar a vitória da sua árdua batalha:
- Tonico, o Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura, decretou o tombamento da Basílica de São Francisco de Canindé!
E eu quebrei-lhe o encanto quando lhe respondi com duas perguntas:
- Tombamento da Basílica de São Francisco? Mas... Ela já não foi “tombada”?
O dinâmico secretário Plínio Gomes perdeu o sorriso. Ficou sério. Como se fosse se deixar fotografar para adquirir sua carteira de identidade. Seu RG.
Daí, eu fui adiante com o meu ponto de vista, expondo para o jovem Secretário, que, a nossa suntuosa Basílica há muito vinha sendo mutilada nas suas feições arquitetônicas góticas, notadamente no que se refere ao seu interior. Exceto as pinturas sacras no teto, obra de muita arte do pintor alemão Jorge Kau, nada mais ali lembra a grande obra projetada pelo exímio arquiteto Italiano Antonio Mazzini e supervisionada pelo grande canindeense Thomaz Barbosa Cordeiro e seu Mestre de Obras Luiz Fabiano.
Infelizmente, alguns vigários franciscanos menores, (alguns menores na mente) desfiguraram a majestosa basílica. Frei Matias de Ponterânica era de baixa estatura física, porém, de inteligência brilhantemente incrível. Conforme anotou para a posteridade o saudoso escritor canindeense Hélio Pinto, da Basílica construída por Frei Matias, foram retiradas: a mesa da comunhão em fino mármore, a pia batismal em forma de concha, confeccionada em mármore italiano e as “banquetas” dos altares laterais. Do meu conhecimento, o maior acinte contra a história cultural religiosa em Canindé foi cometido agora pelo atual Vigário, Frei João Hamilton ao arrancar bruscamente da fachada da Basílica as LUZINHAS que ornamentavam o seu estilo gótico no período dos festejos em louvor ao nosso Glorioso Padroeiro, ali colocadas em 1926. Coisa de quem tem a mente miúda e se deixa “assessorar” por bajuladores de plantão.
Resta-nos daqui agradecer ao Governador Cid Gomes e louvar a luta do grande secretário do Desenvolvimento e Turismo da Prefeitura de Canindé, Plínio Gomes pelo tombamento da nossa basílica, que seria um grande patrimônio histórico. No entanto, não existe mais nada para ser tombado em Canindé. Lamentável aqui registrar, que, todos os prédios históricos da nossa cidade já foram “tombados” por truculentas alavancas e picaretas, que se tornam grosseiros instrumentos quando a serviço de homens de “mentes miúdas”. Li, o livro “História de São Francisco”, onde, em determinado tópico, refere-se à ida dele a uma determinada cidade para participar de um torneio de cavaleiros, quando no caminho ouviu a voz de Cristo:
- Francisco! Francisco! Volta e reconstrói a minha Igreja!
Bom seria agora que São Francisco, imitando o Senhor Jesus, ordenasse o imaculado Frei Matias de Ponterânica, que também se encontra céu, assim:
- Frei Matias! Frei Matias! Volte ao Canindé e restaure a minha Basílica, e, aproveitando a viagem, dê uns puxões de orelhas em alguns vândalos que vestem o meu hábito!
Tonico Marreiro
Canindeense
LOSMUNDO MARRRA
No início dos anos 80, quando regressei de modo definitivo a Canindé para assumir o emprego do Banco do Brasil, a cidade era bem diferente do que é hoje. O número de carros talvez não chegasse a 10 por cento dos atuais e as motos podiam ser contadas nos dedos . A título de exemplo, o bairro Santa Luzia , hoje completamente tomado por casas chamava-se ainda Fazenda Itaporanga e era local de caça para alguns e outros extraiam lenha e/ou fabricavam carvão. Não sou do tipo que gosta de remoer o passado em que o saudosismo é engolido por mágoa, revolta ou tolas comparações de que “no meu tempo era assim”, com um certo ar de superioridade. O meu tempo era aquele é o mesmo de hoje e será o amanhã, pelo menos enquanto vida eu tiver.
Evidentemente que é muito bom recordar dos bons momentos cujas lembranças afagam a alma e arejam a própria existência. Gosto de lembrar que nos finais de tardes ao sair do Banco ia sempre na Casa Marreiro, onde o Laurismundo esbanjava sua irreverência ao passo que se consolidava como líder de uma turma que ali comparecia diariamente. Ele que levara a vida toda como professor e ainda exercia a profissão, estendia seu mister nos momentos de folga, dando lições de vivência contando do período que morou em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, de quando serviu como soldado da aeronáutica , além de falar da sua infância e adolescência em Canindé. Como grande gozador, sempre potencializava os casos mais jocosos, mesmo aqueles em que ele ficara em desvantagem, seu espírito superior permitia largamente a auto-gozação.
Na juventude foi um atleta, adorava vôlei, natação e praticou jiu-jitsu. Por várias vezes falou de uma luta entre ele e um membro de um circo aqui chegou na década de 50. Uma renhida luta em pleno picadeiro em que ele venceu de cara os dois primeiros round’s e no terceiro, enquanto se articulava para dar um golpe definitivo no algoz, seus amigos supuseram que ele se achava em desvantagem e foram em seu socorro.
Naquela época por falta de outros atrativos (nem se falava em televisão e raros eram os que podiam possuir um rádio) os interiores eram infestados por espetáculos mambembes. Era um circo paupérrimo, coberto e envolvido por lona surrada e ao que parece o palhaço era tido como “imoral” para os padrões sociais vigentes, talvez extremamente inocente comparado aos atuais.
Como a cidade era minúscula tínhamos uma vigilância muito acentuada da Igreja Católica que, de certa forma, alertava a comunidade evocando a prática dos bons costumes. Prova disso é que o Circo foi assunto do jornal Santuário de São Francisco de n º 950, ano 41, datado de 15 de agosto de 1955, na forma que se segue: “ No Circo Teatro União que visitou Canindé em princípios de agosto, deram-se diversos desastres, devido alguns a imprevidência do seu pessoal. Uma cerca levianamente eletrificada para impedir a entrada de paraquedistas, ocasionou perigoso choque de um operário do mesmo circo. Numa luta de Jiu-Jitsu entre um jogador do circo e um da cidade, os ânimos se agitaram havendo violência entre os torcedores. E finalmente o palhaço em diversos programas escorregou do terreno do bom humor para os ditos dúbios”.
Como se vê, o irreverente Laurismundo foi notícia no Santuário ainda que de maneira velada. Acho que nem mesmo ele sabia e se soube também nunca me falou, o certo é que “Losmundo Marra” existiu, lutou e foi notícia.
Informações colhidas junto aos irmãos Tonico e Natan Marreiro, dão o exato relato da história: Laurismundo, até pouco mais de um mês, era soldado da Base Aérea de Fortaleza e nas horas vagas atuava como professor de Inglês e Educação Física no Colégio Arminda Araújo que ainda hoje existe com o nome de Franklin Roosvelt. Apesar da estatura pouco avantajada era muito forte, e se enquadrava no tipo que a juventude hoje chama de “sarado”; ademais, treinava Jiu-Jitsu quase que diariamente.
Tendo dado baixa na vida militar, voltou a Canindé com o intuito de dedicar-se ao magistério, justamente na época em o circo aqui aportou. A pequena companhia circense, apesar do nome pomposo - Circo Teatro Escola - era na verdade mais conhecido como Circo do Pereirinha. Era dotada de um número muito limitado de membros e eles em conjunto faziam de tudo, atuavam desde a montagem do espaço físico e eram os próprios artistas do espetáculo. Havia entre eles um camarada que logo na montagem do circo impressionou a todos pela aparência robusta, compatível com a força física que demonstrou no serviço pesado fincando estacas de ferro a toque de marreta e carregando madeira às costas para montar a arena. Chamava-se Zacarias e no espetáculo demonstrava destreza apresentando-se como trapezista sem nenhuma rede de proteção.
O circo era montado em frente ao Mercado Público, no exato local em que hoje se acha a Praça Tomaz Barbosa. Entre as atrações diárias o trapezista Zacarias simulava luta com um membro do circo, que em rodízio, apanhavam do “astro”. A Partir do segundo dia Zacarias passou a desafiar a qualquer um da cidade que quisesse lutar com ele, marcando logo a luta para o espetáculo seguinte. Na verdade tratava-se de um estratégia, presumivelmente utilizada onde eles passavam, para encher a casa. Não aparecia ninguém disposto a enfrentar a fera, até que um grupo de amigos do Laurismundo fizeram de tudo para convencê-lo a participar da luta, afinal, todos se sentiam desmoralizados e somente ele, apesar da visível desvantagem física pelo tamanho de Zacarias, poderia lavar a honra da juventude canindeense, fazendo uso de técnicas de luta.
Laurismundo de princípio relutou, mas acabou cedendo pelo sentimento bairrista, afinal Zacarias teria dito que em Canindé não tinha homem para enfrentá-lo. Tudo isso sob os protestos do seu genitor, Seu Raimundo Marreiro, cujo espírito poeta, o mantinha arredio a qualquer disputa violenta. Naquela noite em pleno picadeiro aceitou o desafio e a luta foi marcada para o dia seguinte às 20:00h.
Na hora marcada entraram no ringue mal acabado, sob o anúncio do apresentador, o invencível “ Zacarias”, que foi freneticamente vaiado pela juventude local e o desafiante “ Losmundo Marra” (foi a maneira que ele consegui para enfeitar o nome do Laurismundo) que foi ovacionado pelos torcedores.
Foi anunciado o início da luta e Zacarias, visivelmente maior pelo menos um palmo, do alto fitou o adversário com a mesma empáfia com que Golias olhou para Davi na batalha entre Filisteus e Israelitas e partiu para o ataque pesado. O desafiante mostrou destreza e num certeiro golpe dominou o gigante. Partiram para o segundo round e mais uma vez o resultado se repetiu, inobstante a força descomunal do circense. No terceiro round Zacarias usou de uma terrível artimanha que impediu o adversário de dominá-lo. Segundo o Natan, ele impregnou todo seu corpo de um óleo e o Laurismundo não conseguia agarrá-lo, pois este “ensebado” escapava dos golpes que em vão lhe eram aplicados. Houve um momento em que o Laurismundo escorregou e o adversário caiu por cima dele sufocando-o com a barriga. A plateia ficou atônita e silenciosa. O Natan e o Marreirinho tinham montado uma estratégia para salvar o irmão caso ele estivesse em desvantagem: cada um armado de baladeira e pedras, criteriosamente selecionadas no leito seco do rio Canindé, atiraria na cabeça do adversário. Quando eles se preparavam para o socorro, enquadrando o agressor na linha de tiro, a plateia enfurecida invadiu a arena, tendo à frente o Ribamar Cordeiro, que puxou uma faca, soltou um grito de guerra e partiu para Zacarias que em pânico saltou o ringue e emendou carreira para longe do circo. Enquanto isso “Losmundo Marra” era carregado como herói nos braços do povo por ter lavado a honra dos seus conterrâneos, mostrando que Canindé era terra de cabra macho. Naquele momento ele dava por encerrada sua carreira de lutador no ringue, todavia, até um final dos seus dias terrenos foi um lutador em prol da educação e da cultura de sua terra, mas aí já é outra história.
Augusto Cesar Magalhães Pinto – outubro/2011