Foto:Francisco de Sousa
EMPREGO INADEQUADO
Por falar na Casa Marreiro - onde o poeta Mário Lira se disse embalado por um "carrossel de sonhos" - lembramos de um 'tirado de lóro' ocorrido com o velho patriarca Raimundo
Marreiro, saudoso poeta de Canindé. Grande parte do artesanato comercializado naquela loja - arreios, alpercatas, cintos e bainhas - são produzidos lá mesmo. Um rapazinho que
trabalhava com couro foi falar com 'seu' Raimundo a fim de obter um emprego. Inteligente, o lojista resolveu entrevistar o candidato antes de dar-lhe o emprego:
- Você bebe, meu diabim?
- Não senhor, Deus me defenda! Nunca botei um copo de bebida na boca... só água!
- E fumar, você fuma?
- Também não... detesto cigarro!
- Não fuma, não bebe... pelo menos freqüenta o "Caneco Amassado"?
- "Caneco Amassado"? Não sei nem aonde fica, 'seu' Raimundo...
- Caneco amassado é o cabaré, meu filho... você já foi lá?
- Não senhor... nunca botei meus pés naquele lugar...
- Então, meu diabim, eu sinto muito mas o emprego não serve pra você. Aqui todo mundo bebe, fuma e freqüenta o Caneco. Com um currículo como o seu, é melhor procurar emprego no Convento!!!
Fonte: O BAÚ DA GAIATICE, Arievaldo Viana
Arte: Klévisson Viana
O LIVRO PROIBIDO
Esta aconteceu com o professor Laurismundo (o saudoso "Velhote Sapeca"), filho do 'seu' Raimundo, quando tomava conta do estabelecimento. Lauris era um sujeito muito culto, politizado e bastante
apegado às tradições populares. Só não gostava de vendedor insistente, principalmente os que lhe aporrinhavam querendo vender mercadoria que não lhe interessava em tempos de pindaíba. Certa feita
apareceu na Casa Marreiro um sujeito muito chato, membro de uma dessas seitas caça-níqueis, querendo lhe vender por fina força um exemplar da Bíblia. E ainda por cima, pelos olhos da
cara. Lauris resolveu brincar com o vendedor para livrar-se logo do sujeito:
- Meu amigo, esse livro é aquele que conta a história do irmão que matou o outro com uma ossada na cabeça?
- Caim e Abel... é verdade...
- Conta também a história das filhas que seduziram o próprio pai e engravidaram dele?
- O senhor deve estar falando das filhas de Lot...
- Exatamente... Tem também a história do rei que seduziu a mulher de um oficial e o fez morrer na guerra... e também do irmão que violentou a própria irmã e...
- É esse mesmo, tá tudo no Antigo Testamento...
- Pois eu não quero não meu amigo... já pensou se minhas filhas pegam um livro desses? Concluiu o Velhote.
Seu Lunga da Caridade
O Agente Rodoviário, aqui de Caridade, chamado LUIZ, é tal e qual o "Seu Lunga" em Juazeiro do Norte em termos de "delicadeza".
Muitas mulheres aguardavam ônibus da Empresa Canindé com destino à Fortaleza. Quando chegou o ônibus, as mulheres foram subindo aos atropelos. Uma mulher, ficou por última, e, conduzia uma
caixinha de papelão toda furada. Daí, ela perguntou para O LUIZ:
- Seu Luiz, eu posso subir com o meu periquito?
O Luiz bruscamente respondeu:
- Pode minha senhora... As outras mulheres subiram com "os delas" e nem perguntaram....
E a mulherzinha "queimou ruim":
- Voce né bêsta não fie d'uma égua? Eu tô perguntando é sobre este "verdim" que vai aqui na caixa...
(Tonico Marreiro)
ZÉ FREIRE:
DE MÉDICO E DE LOUCO...
Compadre Zé Freire é um caboclo arretado, bom de conversa, desses que a gente encontra com certa facilidade no sertão. Dizem que de médico e de louco todos nós temos um pouco, mas Zé Freire
exagerou na dose. Costuma atacar de veterinário com diagnósticos dignos de figurar nas melhores revistas do gênero. Quando surgiu na região a terrível mosca de chifre (inseto portador de um par
de antenas, semelhantes à chifres, que ataca o gado e provoca inúmeras mazelas no rebanho), Zé Freire entendeu que era "mosca de chifre" porque atacava os cornos das reses. Pela sua lógica,
quanto maior fossem os chifres do bovino, maior o risco de ser atacado pela mosca. O que fez então? De posse de um serrote, e como muita lábia, convenceu inúmeros fazendeiros a "mochar" seus
rebanhos, inclusive o nosso amigo Carlos Alberto Martins, na época vice-prefeito de Canindé. Não foram poucos os que caíram na conversa do Zé Freire e mandaram o danado extirpar os chifres dos
rebanhos.
Onde ele chega, tem alegria e zoada. Metido a mandingueiro, possui algumas orações que segundo ele são infalíveis. Vejamos:
OS DEZ MANDAMENTOS DA MULHER QUE QUER
ARRANJAR MARIDO, SEGUNDO ZÉ FREIRE
1 Respeitá-lo, já que deixou alguém por aquele homem;
2 - Recebê-lo com carinho, amor e massagem na sola do pé;
3 - Usar de grande economia;
4 - Confiar e não ter ciúme. O ciúme, a cachaça e a 'ignorãnça' são as três desgraças que atrasam o progresso do Brasil;
5 - Não derrubar o cabelo sem avisar ao peão;
6 Trazer a bruguelada tinindo de asseada, sem canteiro no pescoço nem catarro na ponta da venta;
7 Não fumar nem assistir novela na presença do peão, principalmente novela mexicana;
8 Ficar mais cheirosa do que altar do mês de Maria antes das camaradagens;
9 Evitar amizade com vizinha fofoqueira;
10 - Só o amor constrói e prá frente é que as malas batem.
ORAÇÃO DE ZÉ FREIRE PARA ARRUMAR MULHER
Rezar todo dia 30 de Fevereiro, às seis da manhã e às seis da tarde, ou dia de São Nunca de tarde:
Meu Deus, dai-me a saúde de um jumento, a beleza de um pavão e a potência de um touro chuíte, que caia uma peste de mulher na minha vida maior do que 14 açudes arrombados em grota pequena. Que
toda mulher que aparecer na minha vida apresente 16 sinais de beleza: olho verde, pescoço aveludado, boca pequena, nariz afilado, cintura de pilão, garupa arrebitada, cabelo comprido batendo nos
quartos, que seja bem 'ubrada', que tenha as coxas grossas e roliças, etc. etc... Amém.
Texto: ARIEVALDO VIANA (O Baú da Gaitice - Editora Varal, 1999)
Mais uma do Bonaco ....
Seca terrível em 1958. O Governo Federal abre as chamadas "frentes de serviço" no Nordeste. Canindé não ficou de fora. Foi instalado um escritório do DNOCS na cidade para proceder o alistamento do povo flagelado.
Cada turma de homens era inscrita pelo respectivo "feitôr" responsável pelos mesmos. O nosso saudoso Joaquim Macário da Silva, (Macário Preto), estava alistando os homens na sua turma. Cada
operário deveria apresentar no ato uma ferramenta qualquer... Pá, enxada, picarêta, chibanca, etc.
Fila enorme, quando chegou a vez do Bonaco se apresentar. O "Seu" Macário verificou que ele, Bonaco, não trazia ferramenta, e, bradou para o Bonaco:
- "Ei Bonaco. Não posso lhe alistar... Cadê a sua ferramenta?"
O Bonaco não contou até três, respondendo nas 'buchas":
- " "Seu" Macário, aguenta a mão aí que eu vou lá em casa buscar o rapa-côco da Francisca..."
Até o "seu" Macário que não gostava de pilérias caiu na gargalhada...
Texto de: Tonico Marreiro
O ANJO DA GUARDA DO ZÉ FREIRE
O irreverente Zé Freire não perde oportunidade para dizer uma das suas. E muito ele há muito sustenta uma implacável campanha pessoal contra o casamento, instituição que, no seu ponto de vista, jamais devia ter sido criada. Sobre isso, é dele essa anedota.
Conta que, durante um rigoroso inverno, saiu da povoação de Esperança para Canindé no seu caminhão de horário conduzindo uma carrada de gente. Enquanto subia e descia ladeiras na estrada de chão enlameada, ainda antes do sol raiar ouviu uma voz misteriosa que o alertou:
- Cuidado, Zé Freire, que tem perigo à frente!
Meio espantado, moderou a velocidade, redobrou a atenção no volante, testou os freios e, após rodar cerca de um quilômetro deparou-se numa curva com um rebanho de bois no meio da estrada. Buzinou, os animais abriram passagem e ele continou o trajeto.
Daí a pouco, a voz misteriosa avisou de novo:
- Cuidado, Zé Freire, que tem perigo novamente!
Mais espantado ainda e redobrando a atenção, a pouca distância esbarrou numa cratera aberta pela chuva, deixando a estrada quase totalmente interropmida. Parou o seu carro e, com a ajuda de alguns passageiros, conseguiu abrir um atalho permitindo a passagem.
Terminada a operação, Zé Freire pediu licença aos passageiros, distanciou-se um pouco, tirou o chapéu, olhou para o infinito e disse:
- Meu Deus, que voz é essa que tá me ajudando tanto?!
A voz então, num eco celestial e profundo, respondeu:
- Zé Freire, sou eu, seu Anjo da Guarda, e o estou protegendo desde que você era menino…
Ele, colocando o chapéu sobre o peito, fez um gesto reverente e replicou:
- Muito obrigado, meu santo e bom Anjo da Guarda, por salva agora a minha vida e a vida desse povo! Fico muito agradecido por tudo que você já fez por mim, mas eu tenho uma pequena reclamação pra lhe fazer.
A essa altura, quem já estava meio encabulado era o Anjo. Zé Freire, pondo-se de joelhos, explicou:
- Oh! Meu santo e bom Anjo, já que você me protege desde que eu era menino, por que você não me avisou nada no dia do meu casamento?!...
Autor: Pedro Paulo Paulino