Texto – Pesquisa: ARIEVALDO VIANA
Colaboração: SILVIO ROBERTO SANTOS
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ORIGENS DO CULTO A SÃO FRANCISCO
Para melhor compreensão do conteúdo deste site, houvemos por bem a inclusão de um Apêndice com dados históricos sobre as origens do Santuário de São Francisco das Chagas de Canindé, seu desenvolvimento, transformações ao longo dos séculos e o seu estado atual.
Foram consultadas como fontes principais desta pesquisa o opúsculo Santuário de São Francisco de Canindé, do canindeense Augusto Rocha, cuja primeira edição data de 1907, e o livro São Francisco das Chagas de Canindé, de Frei Venâncio Willeke (Ed. Vozes 2º edição, 1973), ainda considerado o mais completo tratado histórico sobre o famoso santuário franciscano. Fornecemos aqui um resumo dos principais fatos coligidos nestas duas obras. Valemo-nos, ainda de obras secundárias (vide bibliografia), jornais, revistas e de pesquisas realizadas pelo autor desta obra, da oportuna colaboração do poeta e escritor Silvio Roberto Santos, bem como de longas conversas com o historiador Francisco Magalhães Karam (1926 2001) do qual as crônicas históricas publicadas no jornal Santuário de S. Francisco, depoimentos e palestras possibilitaram o vislumbre de sua ampla erudição não apenas na história de Canindé. Por inúmeras vezes, consentiu o acesso de estudiosos ao seu fabuloso acervo histórico e iconográfico coligido através das mais diversas fontes e épocas, num prolífico trabalho de toda sua vida, cuja publicação, em um trabalho mais amplo, sempre adiou. Com seu passamento, fechou-se por definitivo essa porta, estabelecido pelos atuais detentores um verdadeiro índex. Ficaram privados, talvez indefinidamente, os pesquisadores menos aclamados ou não beneficiados por critérios obscuros.
Como bem o disse Augusto Rocha, pioneiro das letras canindeenses na apresentação de sua obra Santuário de São Francisco de Canindé, não é nossa intenção escrever um tratado com todos os rigores e métodos investigativos da História, nem tampouco engendrar uma obra com floreios e requintes literários. Nosso objetivo prende-se, sobretudo, à necessidade de elucidar diversas passagens do primeiro Capítulo desta obra, baseada na pesquisa de dezenas de folhetos da chamada Literatura de Cordel, acerca dos milagres e prodígios atribuídos ao padroeiro de Canindé. Eis, portanto, a razão deste breve esboço histórico, narrando as origens desse culto e sua propagação além-fronteiras, para melhor compreensão das gerações atuais e futuras deste fenômeno tão singular.
OS PRIMEIROS HABITANTES E A CAPELA PRIMITIVA
Há registros de que por volta do ano de 1764, a região que hoje compreende o município de Canindé já era habitada e dividida em latifúndios, cujos proprietários, provenientes em parte do Jaguaribe, de Baturité e Fortaleza, exploravam a criação de gado e a lavoura. Entre estes primeiros colonizadores estava o tenente-general Simão Barbosa Cordeiro, filho do capitão Francisco Simões Tinoco e de D. Ana Barbosa, filha de Simão Barbosa e D. Francisca Leitão. Fixou residência em Canindé em 1793, juntamente com aquele que a história consideraria como o fundador, sargento-mor português Francisco Xavier de Medeiros. Quando o mesmo se estabeleceu às margens do Rio Canindé, iniciou, por volta de 1775, a construção de uma pequena capela dedicada a São Francisco das Chagas, contando para isso com a ajuda de habitantes locais e de “um religioso anônimo”*. O local escolhido para construção da capela situava-se, segundo o Padre Neri Feitosa, em terras “reguengas” (isto é, sobras de terras não demarcadas) situadas às margens do Rio Canindé. Alguns historiadores atestam que a posse do referido terreno foi reivindicada por três irmãos fazendeiros da região do Jaguaribe quando a obra da capela já se encontrava em andamento, sendo a mesma interditada por um oficial de justiça. A referida construção também foi interrompida por longo período devido a uma grande estiagem, a famosa seca dos três setes (1777), permanecendo parada até 1793. Em dezoito anos de construção, as paredes não passaram de oito palmos de altura. Finalmente, em 1796, a capela é inaugurada, embora faltasse uma das torres e parte do soalho, tendo por primeiro capelão o padre João José Vieira. O Capitão Jerônimo Machado fez a doação da imagem grande de São Francisco, que foi trazida de Portugal, havendo custado 80 contos de réis. Por essa época, já era venerada em Canindé a imagem primitiva ou “São Francisquinho”, que ainda hoje é conduzida solenemente na procissão do dia 04 de outubro.
No início do século XIX, os festejos de São Francisco já eram tradicionais, e a romaria aumentava, impulsionando o povoado ao desenvolvimento. A tradição narra a ocorrência de episódios, ainda envoltos numa áurea de encanto até os dias presentes, durante a construção do templo, dos quais foram protagonistas um pedreiro e o próprio construtor Xavier de Medeiros. O primeiro, depois de despencar da torre, ficara preso pela camisa a uma viga dos andaimes, após valer-se de São Francisco; o segundo sofrera o impacto de uma pesada tesoura de madeira, que despencou do teto sobre a sua coxa, sem lhe causar nenhum dano. Grandes romarias se verificariam já nas primeiras décadas do século XIX. Por conta da importância do culto religioso, El Rei D. João VI, através do Alvará de 30 de outubro de 1817, elevou a capela à categoria de igreja matriz, da qual o primeiro vigário, Pe. Francisco de Paula Barros, tomou posse no ano seguinte.
A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA
Politicamente, Canindé obteve sua emancipação quando o presidente da província do Ceará Ignácio Correia de Vasconcelos promoveu uma vasta divisão territorial, sendo pela Lei nº 365, de 29 de julho de 1846, criado o município de Canindé, cujo território passou a ser o mesmo da Freguesia, criada em 1818 por ordem régia de D. João VI, tendo como conseqüência a elevação do povoado à categoria de vila. Conforme afirma o pesquisador e iconógrafo Augusto César Magalhães Pinto em obra ainda inédita, no âmbito do município não existia poder executivo, a Câmara Municipal era quem deliberava sobre a administração da Vila. Não havendo autonomia financeira ou qualquer estrutura para tocar obras, estas, para serem realizadas, tinham que ser submetidas pelos vereadores à câmara legislativa. Sendo aprovadas, eram então executadas por um arrematante. Em 1914, conforme a Lei Estadual nº 1.221, de 25 de agosto, a Vila de Canindé passou a cidade. Pela Lei nº 1.190, de 05 de agosto daquele mesmo ano, a antiga denominação de Intendência foi substituída pela de Prefeitura, sendo nomeado primeiro prefeito o sr. Antônio Monteiro Filho, conhecido popularmente como Sitônio Monteiro. (Vieira, Hélio Pinto in Cronologia Canindeense, pag. 39, bibliografia)
CHEGAM OS CAPUCHINHOS
Um dos acontecimentos mais marcantes para o desenvolvimento do culto franciscano em Canindé foi a chegada dos missionários capuchinhos, um ramo autônomo da ordem religiosa mendicante dos católicos romanos, os franciscanos, que data da reforma efetuada em 1525, na Itália. O seu alvo era o retorno à religiosidade original e à austeridade da regra de Francisco de Assis. O capuz longo e pontudo (capuche), deu origem ao nome da ordem (capuchinhos), similar ao capuz usado por São Francisco (Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, volume 1 A-C). Mediante um contrato firmado com o arcebispo D. Manoel da Silva Gomes, tomaram conta da paróquia de São Francisco das Chagas durante 25 anos, empreendendo os maiores benefícios que esta cidade já recebera em toda a sua história.
Vindos da Província de São Carlos de Milão - Itália, os frades capuchinhos chegaram em Canindé no dia 22 de setembro de 1898. Segundo as fontes históricas mais acreditadas, os missionários foram recebidos festivamente pela população canindeense que seguiu em comitiva para recepcioná-los condignamente na estação ferroviária de Itaúna (atualmente o município de Itapiúna, situado na Região do Maciço de Baturité). Entretanto, ao contrário do que apontam algumas fontes, nos afirmou certa feita o historiador Francisco Karam, baseado no testemunho histórico do sr. Joaquim Macário da Silva (1888 - 1975), que os mesmos foram recebidos indiferentemente pela população. Não havia sequer local para hospedagem dos frades e eles ficaram residindo em moradia própria para romeiros. Como que contrariando a acolhida inicial, implementaram grande progresso espiritual e tornaram-se grandes beneméritos. Fundaram o Liceu de Artes e Ofícios que durante muito tempo ofereceu à juventude canindeense o acesso à várias profissões. Instalaram também o colégio Santo Antônio e o Orfanato Santa Clara e ampliaram o prédio da Casa de São Francisco, em 1905.
A BASÍLICA DE CANINDÉ
O templo construído por Xavier de Medeiros sofreu, ao longo dos anos, diversas modificações (ampliações e reformas) passando de uma modesta capela sertaneja a uma das melhores matrizes do Ceará. Augusto Rocha assevera que o templo demolido em 1910 possuía uma beleza e um “fausto oriental”, embora admita que a referida construção apresentava defeitos “que não condiziam com os padrões da arquitetura moderna”. O certo é que após a chegada dos missionários capuchinhos, o culto a São Francisco havia atingido o chamado “período de ouro” e a velha matriz não comportava mais o número crescente de romeiros. Diante disso, Frei Matias de Ponterânica resolve tornar realidade um arrojado plano de reforma geral da Igreja de São Francisco confiando esta empreitada ao arquiteto italiano Antônio Mazzini.
O poeta Cruz Filho narra o acontecimento no conto A Basílica, do livro Histórias-de-Trancoso, publicado em 1971: “Com a jurisdição dos capuchinhos veio a ter o vetusto templo a sua sentença de morte. Começara então o prestigioso santuário a receber os mortíferos golpes da picareta do arquiteto Antônio Mazzini, que lhe esbarrondavam as sólidas paredes, para, sobre os seus escombros, edificar magnífica basílica”.
Os trabalhos foram iniciados em 1910, sob protestos da população, e se estenderam até 1915, época de terrível seca. Naquele ano, o Santuário foi provisoriamente bento e aberto ao público pelo então vigário de Canindé, Frei Cirilo de Bérgamo. O belíssimo templo, construído em forma de cruz grega, contrastava com o então humilde casario da cidade. Suas magníficas torres com janelas góticas atingem a altura de 32 metros e a cúpula central 35 metros. Nas palavras do poeta Otacílio de Azevedo a cúpula “levanta-se da majestosa igreja, como um zimbório de ouro em pleno espaço aberto, parecendo catalisar ao seu redor toda uma gama de fenômenos místicos”. Até meados do século passado, o zimbório era dourado e não da cor que se apresenta atualmente.
O interior original do templo foi construído em fino estilo toscano. Em fins do século passado, intervenções iconoclastas desfizeram o antigo clima sóbrio e simples dos primeiros tempos. Os primorosos painéis do pintor alemão George Kau, que são da década de 20 do século passado, ainda fascinam os romeiros. Os capuchinhos, que realizaram uma admirável obra de arte sacra em pleno rincão sertanejo, infelizmente se retiraram de Canindé antes de verem o santuário elevado à dignidade de Basílica Menor, em 1925. No ano em que os capuchinhos partiram para o Maranhão, com a fundação da prelazia de Grajaú, em 1923, os frades da Ordem Franciscana Menor se estabeleceram nesta paróquia, vindos da Bahia. Como seus antecessores, empreenderam uma grande cruzada espiritual e nas rudes condições do interior cearense continuam até hoje o seu trabalho piedoso. O povo não esquece nomes como o de Frei Matias de Ponterânica, Frei Teodoro, Frei Lucas Vonegut, Frei Policarpo Cornélius e Frei Lucas Dolle.
TEMPOS MODERNOS
Pelo que vimos, a história de Canindé está intrinsecamente ligada à romaria ao seu padroeiro São Francisco. A cidade foi crescendo em torno da igreja, à medida que o culto se propagava, atraindo milhares de devotos de outras regiões. Hoje, os limites territoriais de Canindé atingem os distritos de Bonito, Esperança, Ipueira dos Gomes, Targinos, Capitão Pedro Sampaio, Salitre e Ubiraçu, numa extensão de 2.883 quilômetros quadrados, equivalendo a 1,96% do território estadual (6º município cearense em extensão). Suas coordenadas geográficas são: latitude de 4º 21'32''S e longitude de 39º18'42''W. A sede tem altitude de 149,73m. Limita-se com o municípios de Tejuçuoca, Paramoti e Caridade, ao Norte; ao Sul, com Itatira, Madalena e Choró; a Leste, com Aratuba e Itapiúna e, a Oeste, com Santa Quitéria e Sobral. Sua população é aproximada aos 70 mil habitantes. A situação geográfica é a Zona do Sertão Central do Estado, de clima quente e seco, distando 110 quilômetros de Fortaleza. De simples arraial, Canindé tornou-se a Meca Nordestina. Atualmente, a Festa de São Francisco, um dos mais importantes eventos do calendário religioso nordestino, realiza-se na Praça do Romeiro, um gigantesco anfiteatro ao ar livre, com capacidade para abrigar 110 mil pessoas, construído no final da década de 80 do século passado.
Como afirmou Frei Venâncio Willeke em seu tratado histórico (vide bibliografia), “embora o número de Romeiros que anualmente visitam Assis, cidade berço do Padroeiro, supere os de Canindé, a fé e a confiança dos peregrinos canindeenses, patenteadas pelos incontáveis ex-votos, fazem de Canindé o PRIMEIRO SANTUÁRIO FRANCISCANO DO MUNDO.”
Festa de São Francisco - 1952
Festa de São Francisco - 1952
Visita da imagem de N. Senhora a Canindé - Dez. 1953
Construção do Mercado de Canindé